É uma injustiça dizer que o economista Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, não gosta do debate democrático. Gosta e sempre gostou, desde que os interlocutores pensem como ele.

A censura ao Ipea, que Pochmann acaba de decretar, embargando a publicação da tradicional Carta de Conjuntura para mascarar a subida da inflação, é um ato absolutamente coerente em seu currículo.

Este signatário sempre expressou, nas redações por que passou, a crítica à forma como a imprensa ouvia e publicava as declarações de Márcio Pochmann. Quase sempre ele era apresentado como um técnico, avaliando a economia na condição de professor da Unicamp, ou seja, o leitor era levado a entender que estava diante de uma visão acadêmica.

Isso nunca foi verdade. Márcio Pochmann é, antes de tudo, um militante, um ideológico. Seu saber acadêmico não sustenta suas convicções políticas, o que ocorre é o contrário.

Isso não é problema dele. É problema de quem o lê com a lente errada, e leva gato partidário por lebre científica.

Antes de Lula chegar ao poder, o professor da Unicamp cansou de fazer suas pajelanças numéricas, suas contas de chegar, “concluindo†a todo momento, por exemplo, que o “modelo neoliberal†causava necessariamente taxas crescentes de desemprego. É claro que, assim como no Ipea o professor só divulga o que quer, nos seus estudos só comparava os dados que queria com os que bem entendia.

A conjuntura de aperto da economia internacional na época, por exemplo, nunca entrava nos seus cálculos – que a imprensa inocentemente divulgava com a grife da Unicamp, não com a do PT.

O “modelo neoliberal†que causava inexoravelmente explosão do desemprego é o mesmo de hoje, quando as taxas de desemprego se estabilizaram. Regime de metas de inflação reguladas com política monetária (taxa de juros), responsabilidade fiscal, superávit primário, enfim, a política econômica que o Brasil segue há 15 anos.

A única diferença é que os estudos de Márcio Pochmann sobre o assunto desapareceram.

Mas ele não está satisfeito. Seu plano secreto, que todo mundo sabe, é “derrotar o Banco Centralâ€. Daí a manobra genial de esconder as projeções de inflação: para “enfraquecer os monetaristasâ€, como dizem nos bastidores seus colegas de grêmio estudantil.

Por que ninguém dá um forte-apache para esses meninos brincarem?






Com a inflação voltando com tudo depois da gastança governamental (não por falta de aviso) e o Ipea censurado como nem na ditadura para esconder a escalada de preços, o presidente da República só fala ao país sobre a sua obsessão pelo álcool.

É torcer para que, pelo menos, não dirija.






Está tudo ao contrário. Antigamente, era o stablishment que queria controlar a liberdade sexual. Agora é a liberdade sexual que quer enquadrar o stablishment.

Esse projeto de lei que o Senado vai votar, criminalizando atos de preconceito contra os gays, não poderia ser mais preconceituoso.

Pelas novas regras propostas para a vida em sociedade, se um proprietário não alugar seu imóvel para um homossexual, por exemplo, pode ir preso. O motivo pode até ter sido a falta de confiança no fiador, mas o inquilino recusado poderá alegar que foi discriminado por sua opção sexual.

E por aí vai, com desdobramentos igualmente autoritários para seleção profissional, tratamento na rua etc. Chamar um sujeito burro de “jumento†pode. Chamar um gay de “bichona†vai dar cadeia. A ditadura politicamente correta ainda vai te mandar tratar cachorro vira-latas de sua excelência.

Esse virtuosismo estúpido quer que negros tenham matrículas raciais nas universidades – o que é, por si só, humilhante e discriminatório. Em vez de afirmar culturalmente o quanto é sadia a liberdade sexual e afetiva, cria-se uma mordaça para reprimir os retrógrados. Moralismo combatido com moralismo.

Por que o pinguço é no máximo um inconveniente, e o maconheiro tem aura de bandido? De novo, por obra e graça do moralismo das leis.

O desastre da institucionalização do preconceito é estudado de forma brilhante no livro “A arte perniciosa: A repressão penal aos capoeiras na República Velhaâ€, do advogado Renato Neves Tonini, que está sendo lançado pela editora Lúmen Júris.

O autor mostra, entre outros aspectos, como a criminalização da capoeira no Brasil do século 19 fermentou o preconceito entre elite e povo. De quebra, indica o quanto esse tipo de regra arbitrária vira fonte de corrupção policial e judiciária.

Pelo visto, o Brasil nunca vai entender que o comportamento dos cidadãos não se corrige a canetadas.






O jornalista Carlos Heitor Cony tem sido questionado por sua pensão como perseguido da ditadura. Esse assunto fica para outra hora. O momento é de exaltar a coragem de Cony.

Em meio às comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, o jornalista deu a seguinte declaração sobre a canção “Garota de Ipanemaâ€:

– É uma música chata.

Por esse ato de bravura e profunda sensibilidade, desafiando a poderosa patrulha do banquinho e violão, este espaço propõe pensão vitalícia até os bisnetos de Carlos Heitor Cony.






Heloísa Helena é candidata a vereadora. Não, não é piada de neoliberal. É fato.

A ex-candidata a presidente, que era contra tudo isso que aí está (e mais alguma coisa), e se dizia pronta para substituir Lula, o traidor da esquerda, mudou de planos.

Em vez de governar o Brasil, agora quer legislar sobre os buracos das ruas de Maceió.

O eleitor a essa hora deve estar tentando imaginar o que Heloísa Helena vai fazer com a sua plataforma de baixar os juros por decreto, dar calote nas dívidas externa e interna e superar a ordem capitalista.

Quem sabe o socialismo real não começa no Brasil a partir de Alagoas?

Mas avisem aos politólogos para, por favor, nos poupar de seus artigos explicativos sobre a guinada para baixo da ex-senadora, filosofando sobre por que o sucesso lhe subiu ao dedão do pé.

A verdade está aqui, de graça, em uma frase: a esquerda brasileira sabe mesmo é fazer discurso e ocupar cargo.

Todos viram o trauma que foi para Lula e seus Delúbios assumir o governo. Achavam, com pureza d’alma, que o slogan Fome Zero resolveria a parada – o resto seria fumar charuto e jogar bola.

Não há dúvidas de que Lula deu uma bela virada, adquiriu inegáveis noções de estadista, e impediu por exemplo que seus Mantegas aloprados avacalhassem a estabilidade econômica. Mas a esquerda é fértil, e para cada Lula que aprende a colaborar, surge pelo menos uma Heloísa Helena para ensinar a atrapalhar.

O Muro de Berlim, quem diria, foi parar em Maceió.






Nelson Jobim, o advogado de José Dirceu na presidência do Supremo, agora é advogado do bispo Crivella no comando das Forças Armadas. Só não podem acusá-lo de falta de versatilidade.

O Brasil está nessa conjunção histórica: a República mobiliza o Exército, em nome da segurança dos cidadãos, para proteger um projeto eleitoral de um candidato a prefeito na favela. O político que merece toda essa força-tarefa é um pregador afilhado do vice-presidente da República, que dizem ser a nova elite empresarial.

Essa aliança sindical-pentecostal-subempresarial é a cara do Brasil de hoje. Só faltava mesmo o manto do sub-virtuoso Jobim, o lavador-geral de reputações.

É claro que o debate está centralizado na punição aos militares que entregaram os jovens inocentes à barbárie dos traficantes do morro da Mineira – rival do morro da Providência, onde está o conclave republicano pró-bispo. Infelizmente, a conduta covarde desses membros do Exército brasileiro é o menor absurdo desse enredo. Barra pesada.

Os traficantes da mineira que executaram a carnificina, por exemplo, foram esquecidos. A polícia não tem nem pista deles, e os indiguinaldos também parecem não estar nem aí para os assassinos. Talvez a patente de traficante já garanta hoje em dia uma espécie de salvo conduto em matéria de direitos humanos. Os facínoras estão, por assim dizer, no papel deles.

Lula e seu evangelho populista também parecem ter habeas corpus preventivo para negociatas eleitorais. Punam-se, então, os soldados.






Essa multa a Marta Suplicy por propaganda eleitoral fora de hora é muito interessante.

Os bem pensantes vivem reclamando que os políticos brasileiros se furtam ao debate de idéias. Quando a imprensa e os candidatos resolvem tratar espontaneamente das questões da administração pública, são multados por falar demais.

Deve ser uma brincadeira, essa premissa da Justiça Eleitoral de São Paulo, de que uma ex-ministra pré-candidata a prefeita de São Paulo não possa dar declarações sobre os problemas de São Paulo.

Se a moda pega, todos os pré-candidatos a alguma coisa pública no Brasil, que queiram discutir alguma coisa pública no Brasil, terão que passar a se submeter a uma tabela isonômica de centimetragem e minutagem em todos os órgãos de imprensa no território nacional.

É mais fácil vigiar contrabando na Amazônia.

Ou então, pode-se adotar uma saída mais simples: mordaça geral. Ninguém declara mais nada sobre nada, em tempo algum. A eleição será cega, mas pelo menos será justa.

Parabéns ao espírito democrático da Justiça Eleitoral de São Paulo.






A seleção brasileira não é uma decepção. Decepção é aquilo que fica aquém das expectativas. Portanto, a culpa dos vexames não é do Dunga. É das expectativas.

A famosa seleção canarinho foi um importante patrimônio nacional no século passado.

Quando Garrincha atropelou os russos sem a menor cerimônia em 58, abrindo caminho para a conquista da Suécia, a auto-imagem do brasileiro mudou de patamar. Foi uma dádiva bonita e poderosa do futebol para a identidade de um povo.

O patriotismo de chuteiras, mesmo quando explorado pela ditadura militar, não era um delírio ufanista. Era um jorro cultural. Mais do que o Brasil, os brasileiros devem muito a Garrincha, Pelé, Jairzinho, Romário e companhia. Devem não só diversão. Devem-lhes caráter.

Mas esse tempo acabou. Buscar hoje emoção patriótica na seleção brasileira é um pouco como tentar esquentar um casamento agonizante. Frustração garantida. Mesmo que o time ganhe.

O espírito de epopéia encarnado na camisa amarela morreu. Deu o que tinha que dar – e foi muito. Agora virou assombração, um exercício estranho de idolatria com data de validade vencida. Da pátria em chuteiras só restaram as chuteiras – prateadas, afetadas, sem alma.

Não há pecado nisso. Apenas mudaram os objetivos. Na última Copa, o capitão Cafu jogava (sic) por uma estatística pessoal. Sua ONG era sua pátria. Roberto Carlos ajeitava seu pé-de-meia em campo, enquanto Ronaldo lutava contra o seu peso e o seu tédio – até porque na Alemanha não há calçadas tão excitantes quanto as da Barra da Tijuca.

Dunga, que dirige um time a cara do Soneca, se ofende com as cobranças dos jornalistas. Assim como outros aventureiros primários que ali aportam, se sente injustiçado, invadido em sua privacidade. A seleção brasileira é deles, das suas carreiras, das suas ONGs, dos seus figurinos. O povo, nostálgico, não entende isso.

A seleção brasileira se empanturrou de glórias, de metáforas, de grana. Que bom. Mas hoje é uma alegoria de si mesma. Um carro alegórico com o peso de mil Ronaldos entalado na Marquês de Sapucaí.

Andou pegando no tranco com choque elétrico de Felipão. Mas sua evolução é outra. É a de um Robinho puxando o saco de Zidane em pleno campo de batalha, onde o Brasil acabava de ser eliminado pela França. A pátria do neguinho brasileiro era o Real Madrid.

Que sejam todos felizes e fiquem cada vez mais ricos. Mas não venham nos vender expectativas falsas e idolatria vencida. O público para os jogos da seleção será cada vez mais aquele que se emociona vendo Papai Noel e Xuxa descerem de helicóptero no Maracanã (com patrocínio de remédio contra micose).

Daqui a pouco, eles também deixarão de se comover com uma derrota para a Venezuela. E exigirão Soneca no lugar de Dunga. Chega de intermediários.






O melhor emprego do Brasil é o do senador Paulo Paim (PT-RS). Ele se reelege há umas duas décadas fantasiado de defensor do salário-mínimo. Agora, o demagogo mais bem sucedido do Brasil ataca novamente.

Foi aprovado no Senado projeto do senador gaúcho que estende o reajuste do salário-mínimo a todos os aposentados e pensionistas do INSS, inclusive os que ganham acima de um salário-mínimo (contemplados com uma parcela do aumento). É uma dinheirama que vai chover sobre o povo.

Lula está, evidentemente, irritado com a aprovação desse projeto irresponsável, mas isso é problema dele. O presidente vai tentar barrá-lo na Câmara. Se conseguir, salva o equilíbrio fiscal, mas fica com o ônus perante a população. O único que não corre riscos, como sempre, é Paim. Se a lei não passar, ele se salva como samaritano injustiçado. No ano que vem arma outra pegadinha, arranja de novo bom espaço na imprensa, e a vida segue, eleição após eleição.

Ninguém sabe que contas são essas que Paim faz para fundamentar seus projetos. Nem ele. E não está nem aí, porque a caridade é com o chapéu alheio. Mais precisamente o seu, caro leitor contribuinte.

O salário-mínimo é baixo, e as aposentadorias do INSS são magras. Mas tiveram aumentos reais nos últimos 15 anos e fazem diferença no Brasil rural, onde representam em muitas cidades a maior fonte de renda. Há muitos projetos para a melhoria do sistema de previdência no Brasil, como a passagem para o regime de capitalização, como foi feito no Chile – mas que custa muito caro ao Estado num primeiro momento.

Isso seria no terreno das coisas sérias. Mas o Brasil gosta mesmo é de folclore. Tanto que Brizola por aqui foi um mito, e um político como Paulo Paim escapa há tanto tempo da guilhotina do ridículo.

É sintomático que a nova presepada populista de Paim aconteça no momento em que a inflação atinge seu maior índice em 12 anos. Paim é um viúvo da correção monetária, da economia indexada, que a pretexto de proteger o valor dos bens e dos salários destrói o valor do dinheiro e empobrece a população. O Brasil sabe bem o que é isso.

Eis o que é Paulo Paim: um gigolô da inflação e da carestia, disfarçado de bom samaritano. Em 1993, o Plano Real quase foi abortado por causa de um projeto seu, que reajustava mensalmente todos os salários do país e dava aumento real obrigatório ao salário-mínimo todo mês.

Por que esse homem-bomba continua à solta por aí? Não é culpa dele. É apenas sinal de que a sua demagogia ainda encontra eco. Um dos guetos onde ela ecoa é, quem diria, o famigerado PAC – que flerta envergonhado com a correção monetária, prevendo reajustes automáticos ao salário-mínimo.

Enquanto tiver gente para acreditar que isso tem alguma coisa a ver com aceleração do crescimento, haverá gente para votar em Paulo Paim. E garantir-lhe dezenas de salários-mínimos no melhor emprego do Brasil.






A nova CSSL (Contribuição Social para a Saúde do Lula), em pauta hoje na Câmara dos Deputados, não é só um estupro tributário, que se acumula com os impostos aumentados para compensar a antiga CPMF.

É também um estupro constitucional. Leiam trechos de artigo do advogado Paulo André Simões, publicado no portal Jus Navigandi:

“O artigo 154, inciso I, combinado com o artigo 195, parágrafo quarto, ambos da Constituição de 88, possibilitam a criação de tributo, para fins de custeio da seguridade social, aí incluída a saúde, desde que a sua criação ocorra por Lei Complementar, seja não-cumulativo e não tenha fato gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados na Constituição.â€

“A CSS/CPMF é tributo marcadamente cumulativo, ante a sua incidência indiscriminada na cadeia de produção e circulação.â€

“A instituição da Contribuição Social da Saúde, na forma pretendida por parte da base parlamentar do governo, atenta contra os mais elementares postulados das ciências constitucionais e tributárias e deve, em razão disso, ser rechaçada (…)â€

Mas deixa pra lá. São vozes isoladas. Os brasileiros devem estar gostando de azeitar essa formidável máquina de arrecadação que se tornou o governo federal. E viva o espetáculo do crescimento dos impostos.









Guilherme Fiuza
Jornalista, é autor de Meu nome não é Johnny, que deu origem ao filme. Escreveu também o livro 3.000 Dias no Bunker, reportagem sobre a equipe que combateu a inflação no Brasil. Em política, foi editor de O Globo e assinou em NoMínimo um dos dez blogs mais lidos nessa área. Este espaço é uma janela para os grandes temas da atualidade, com alguma informação e muita opinião.