Formulário de Busca

A libido é a última que morre

Seg, 18/08/08
por gmfiuza |
categoria Cinema

Nesses tempos populistas de elogio da mediocridade, de ignorância is beautiful, com a patrulha cobrando pedágio de tudo que é pensado, alguns insistem em desafinar.

Aqui vai a denúncia: tem gente por aí fazendo cinema sem contrapartida social. Filme com ideologia zero, em que não passa nenhum pobre pela tela em mais de uma hora de exibição.

Pior: tem um filme chegando na praça que fala de três velhos. Nenhum take sobre previdência social, sobre inclinações políticas, sobre questões de classe, sobre conflitos raciais, sobre os direitos dos gays ou das mulheres. Aliás, fora a rápida aparição de uma caseira – que não é oprimida –, não tem mulher em cena.

São só três velhos.

O alienado em questão é o diretor Domingos Oliveira. Ainda por cima chamou o filme de “Juventude”.

Paulo José, Aderbal Freire-Filho e o próprio Domingos são três amigos na faixa dos 70 anos que se encontram sozinhos numa casa de campo – sem esposas, sem famílias, sem pretextos sociais, profissionais ou recreativos.

Também não estão ali para desfiar o passado, embora falem dele. Estão ali para transmitir a todos os não-velhos uma mensagem cortante: a suposta relação entre velhice e placidez é um mito.

O Davi de Paulo José é um engenheiro rico, que vive um casamento longo e sólido. O Antonio de Domingos é um escritor que coleciona grandes paixões, a última por uma mulher bem mais jovem. O Ulisses de Aderbal é um médico dedicado, que se orgulha de ter transado com praticamente todas as mulheres que quis. Todos têm filhos. Nenhum tem a vida resolvida.

Estão todos duelando com seus sonhos, frustrações e desejos. Não são os mesmos dos homens de 30, nem dos de 50, mas estão lá. Intensos. Repletos de dilemas e inquietudes. Um crepúsculo com baixos teores de resignação.

No fim-de-semana campestre dos três amigos, aparecem os problemas de saúde, a noção da vizinhança com a morte, a experiência de vida, o arsenal de lembranças. Mas nada disso os torna contemplativos. São mais do que nunca protagonistas de suas vidas. Nada desse papo de velhos barcos atracados no cais e repletos de histórias. Eles querem é navegar.

Dinheiro, amor, sexo, vaidade, planos. Está tudo vivo nos homens de 70. Eles só têm menos tempo para resolver seus problemas – e criar novos.

Aos que estão ainda distantes dessa faixa, em plena roda-viva dos sentidos, cumprindo a gincana frenética da vida, assistam a “Juventude” e concluam: a busca não acaba nunca. Ou, como diria o velho guerreiro, só acaba quando termina.

PS: Em Gramado, Domingos Oliveira ganhou os prêmios de melhor direção e roteiro. Vai ter que filmar uns três bangue-bangues na favela para não ficar devendo contrapartida social na praça.

Cabide pré-sal

Sex, 15/08/08
por gmfiuza |

O Ministério da Pesca não emplacou. Alguém acordou Lula a tempo para o ridículo do ato. Mas a república da boquinha não sossega.

A mais nova conspiração aponta para a criação de uma nova estatal do petróleo, só para as jazidas da camada pré-sal. Será a estatal da estatal.

Se o parasitismo oficial da Petrobras funciona tão bem há mais de meio século, não tem por que não expandir o esquema. À frente da mais nova epopéia burocrática, Dilma Roussef, Guido Mantega, Luciano Coutinho e outros desenvolvimentistas. Que medo.

Assim como o Brasil já teve o Ministério da Desburocratização (um paradoxo), o governo Lula vai acabar criando o Ministério da Burocratização – uma espécie de usina de repartições.

O óleo que vai sair da camada pré-sal ainda é incerto. Mas o emprego para a companheirada já está certo.

PS: E as Olimpíadas, hein? Quanta emoção. A maior conquista nacional até agora foi a namorada que o judoca brasileiro roubou do português.

Hoje tem marmelada!

Qua, 13/08/08
por gmfiuza |
categoria Justiça

Daniel Dantas, o inimigo público número um, foi para o paredão. A hora da verdade. Os representantes do povo prepararam-se para encurralar o vilão, que conseguiu um habeas corpus e ia ficar apanhando calado.

Mas o picadeiro da CPI dos Grampos foi uma frustração só. Daniel Dantas respondeu tudo que lhe foi perguntado. E a artilharia dos deputados só deu em água.

Era o anticlímax anunciado do enredo novelesco montado pela Polícia Federal. Dantas é possivelmente o rei do tráfico de influência nos bastidores da República. Mas o FBI brasileiro preferiu caprichar nos adjetivos sobre a “organização criminosa” comandada pelo banqueiro. Brincadeira de criança.

Dantas pode ser tudo, menos bobo. Vai tirar – já está tirando – isso tudo de letra. Uma investigação bem feita pode levá-lo à ruína. Espuma ele resolve com um sopro.

De quebra, ainda disse na cara do Brasil o que todo mundo sabe: que Luiz Gushiken, o sempre poderoso cupincha de Lula, manobra em favor dos fundos de pensão nos negócios da telefonia – e ainda jogou no ventilador a suspeita de que a operação Satiagraha (alô, Gilberto Braga) foi urdida para atrapalhar a fusão da Brasil Telecom com a Oi.

Ou seja, uma operação da Polícia Federal para favorecer a república sindical de Lula parasitária dos fundos de pensão, controladores da Brasil Telecom.

Isso é o banqueiro que está dizendo. Pode ser pura provocação. Mas é verossímil. Quem vai investigar?

Do jeito que as coisas vão, os representantes do povo e os literatos da PF e do Ministério Público vão dar um jeito, rapidamente, de desmontar esse circo em torno de Daniel Dantas. Estão vendo que os mais fortes candidatos a palhaço são eles mesmos.

Notícias do Oriente

Seg, 11/08/08
por gmfiuza |

O Ocidente se contenta com pouco. Sempre foi assim. A cultura das aparências é a hipnose da sociedade pós-industrial. Bastou a China fazer uma pantomima bem organizada na abertura das Olimpíadas para impressionar os ocidentais.

O problema deles é só terremoto e uma censurazinha a meia dúzia de sites. De resto, são o máximo. Vocês não viram o atleta voador acendendo a pira olímpica?

A moda do orientalismo entre os ocidentais modernos tem sido assim, sempre meio cosmética. Vamos então dar uma olhadela para alguns desses incríveis valores milenares.

É uma cena japonesa, logo ali do lado. Descrita na carta de uma mãe brasileira desesperada. Preservaremos sua identidade, mas conheçamos um pouco do seu drama.

Ela teve um filho preso no Japão por tráfico de drogas. Não está clamando pela inocência dele. Concorda que ele pague pelo que fez. Apenas queria poder ter notícias, acompanhar o processo, enfim, ter um acesso humano ao filho que não pode ver há quatro anos.

Segue o seu desabafo a este signatário:

“Eu não tenho mais estoque para sublimar a ausência do meu filho.

Os japoneses obrigam todos a refletir antes de dar um ‘mau passo’ no Japão. Leio pela internet inúmeros depoimentos de moradores do Japão, dekasseguis ou não, que apóiam o regime de ‘tortura’ física ou mental naqueles que praticam crimes, delitos ou o que seja, aqueles que venham ‘sujar’ a imagem japonesa.

É incrível o pensamento, as reações das pessoas. Busco até hoje por alguém que me ajude por lá a minimizar a espera e só tenho recebido bombardeios assustadores. Tento descobrir ONGs, movimentos de parentes de presos, mas não acho nenhuma pista.

Por isso fico calada, porque mesmo calada eu estou errada no pensamento deles.

O setor do Consulado do Brasil em Tóquio encarregado pelas informações dos presos é insuportável. Eles não gostam de responder a perguntas. Comportam-se como os orientais. É uma diplomacia excessiva. Parece que não somos humanos.

Já começa pela dificuldade de obter informações pelo fuso horário. Quando ligo e consigo falar, procuro saber notícias do meu filho, como anda a tramitação do processo. Eles dizem que não sabem e que sabem menos do que o próprio preso costuma falar nas cartas. Eles disseram que cresceu o número de presos e que não dão conta de acompanhar a situação toda.

Acho que para me despachar de uma vez por todas eles me disseram que era para eu esperar o final da sentença. Gostaria tanto de conhecer alguém que me ouça humanamente naquele consulado.

Já esperneei muito. Agora estou acomodada, como um vulcão velho.”

Não cabe aqui julgamento sobre o caso. É só um flagrante das relações humanas na milenar sociedade oriental. Para além dos efeitos especiais.

Ficha suja (do eleitor)

Sex, 08/08/08
por gmfiuza |
categoria Eleições

Nova indignação na praça. O Supremo liberou a candidatura a cargos eletivos dos cidadãos que respondem a processo na Justiça. Isso é Brasil! O triunfo da impunidade! A festa do colarinho branco! etc etc etc.

Um dado curioso: uma trincheira importante da picaretagem nacional está hoje justamente nos franco-atiradores que processam para ver no que dá.

Há por aí um contingente grande de gente boa (ou supostamente boa), jornalistas, pesquisadores, editores de livros, economistas, respondendo a processo na Justiça. E outra trincheira importante, a da leviandade, tem muitos adeptos entre os juízes de primeira instância.

Some-se um franco-atirador de má-fé com um julgador sôfrego e tem-se, tranqüilamente, a condenação de um cidadão de bem. Está cheio de casos assim por aí.

Se o Supremo aprovasse o tão reclamado embargo da ficha suja, imaginem a quantidade de armações entre políticos espertos e juízes compráveis para torpedear candidaturas legítimas.

Não seria difícil. A sociedade poderia até escolher pagar esse preço. Na dúvida, se alguns bebês fossem jogados fora junto com a água do banho, pelo menos se teria a garantia de que a água suja foi toda embora.

Mas não seria mais fácil fazer um esforço para votar direito?

Esses acessos de virtude dos brasileiros estão cada vez mais preguiçosos. A estupidez da sociedade é sempre perdoada. Os homens lá em cima é que têm que criar leis para constranger o estúpido.

Vamos ver se aparece algum virtuoso com coragem para propor a ficha suja do eleitor.

Nos municípios onde Paulo Maluf tiver sido o mais votado, ninguém vota nas próximas eleições. Nas zonas eleitorais que tiverem registrado mais de 10% dos votos para Eurico Miranda, ninguém mais entra. E assim por diante.

Chega de inocência impune.

Sobre o masoquismo

Qui, 07/08/08
por gmfiuza |
categoria Lula

A imensa maioria dos comentaristas deste espaço é de torcedores do PT. Simpatizantes, provavelmente. Mas acima de tudo torcedores. Defendem um partido político como se defende um clube de futebol.

O Lula tem mais títulos (opa!) que o Fernando Henrique! Aquele gol atribuído aos tucanos foi feito pelo Itamar! Foi injusto o resultado que mandou José Dirceu para a segunda divisão!

O curioso é que no momento em que é reconhecido aqui um traço importante de estadista do presidente Lula, os comentaristas se retraem. Sua excitação parece ter ido tomar uma chuveirada fria no vestiário.

Seria um comportamento típico de quem não quer debater idéias, só quer patrulhar. E se não há ninguém na rua questionando o evangelho petista, a patrulha cochila, ociosa.

Mas não pode ser isso. Seria tacanho demais. A alternativa que resta é supor que esses bravos torcedores do PT têm a síndrome do botafoguense: a excitação máxima só pode ser alcançada quando seu time perde.

Mas isto não é uma reprimenda. A glória do sofrimento também é sagrada.

A Argentina é longe daqui

Ter, 05/08/08
por gmfiuza |
categoria Lula

Brasil e Argentina nasceram grudados, como disse Lula. Felizmente, já se desgrudaram e hoje navegam cada um para um lado. Pelo menos no mapa político. Em parte, graças a Lula.

O presidente brasileiro é um símbolo popular, e já se perdeu diversas vezes entre a afirmação desse simbolismo e o puro populismo. Mas nunca submeteu o Brasil à irresponsabilidade que os Kirchner, o casal teatral, tiveram com os argentinos.

Olhando hoje para os vizinhos, descontada a compaixão, os brasileiros podem se sentir aliviados. A fanfarronice populista de Nestor e Cristina não tem paralelo por aqui. É um contraste lamentável, mas serve para delimitar as críticas que se pode fazer a Lula.

Aquele vento rosado de crescimento nacional-voluntarista, dando banana para os credores, transformou os Kirchner em fenômeno continental. Finalmente, surgia um governante de esquerda peitudo e competente.

Estava na cara – e este espaço, em sua encarnação anterior, não foi o único a apontar – que aquilo era mais uma aventura do populismo crônico argentino. E não ia acabar bem.

Com sua festejada política de juros de mentira, tarifas de mentira e calotes de verdade, a Argentina tem hoje uma das maiores inflações do mundo. Seu governo está caindo pelas tabelas, e lá vem o filme da crise econômica argentina – que sempre nasce das trapalhadas políticas.

Esse vento rosado cansou de ser exaltado por aqui, notadamente no partido do presidente. Lula não caiu nesse conto. E não foi ouvindo Dilmas, Mantegas, Amorins, Genros, Pochmans e companhia.

Não caiu por esperteza, ou por sensibilidade política, ou por desconfiança, ou por amor à pele, não importa. Por acaso, não foi.

O mal-estar de Lula com Cristina Kirchner e Hugo Chávez em Buenos Aires é, sem dúvida, um motivo de bem-estar para os brasileiros em relação a seu presidente.

Milícia Federal

Seg, 04/08/08
por gmfiuza |
categoria Eleições, Justiça

Enquanto Lula não cria o Ministério do Vai dar M…, conforme proposto por Chico Buarque, vamos fazendo a nossa parte.

Era óbvio, era evidente, que essa sanha depuradora da Polícia Federal, com seus mandados de prisão a torto e a direito, algemas, holofotes e operações redentoras com nome de novela ia dar… Bem, vocês sabem.

Aí está. Todos os brasileiros estão grampeados pela PF. Notícia tranqüilizadora. Finalmente, vai acabar a impunidade.

Aquele diálogo telefônico que você teve com seu filho sobre a mesada dele (“Te dou uma parte hoje. O resto você recebe em 15 dias, se cumprir o que combinamos”) já pode virar escândalo no “Jornal Nacional”.

A Polícia Federal está antenada com as mais modernas tendências do crime nas grandes cidades. Para combater a crueldade dos bandidos, surgem as milícias. Policiais à paisana prendem, arrebentam, matam e assumem o controle informal sobre o ir-e-vir do cidadão. Em nome da paz.

A Polícia Federal grampeou a população brasileira. O país saúda sua milícia governamental.

PS: O deputado Chico Alencar, candidato do PSOL a prefeito do Rio, conseguiu relativizar a censura imposta à sua equipe por traficantes armados: “Isso aqui é só o varejo. A gente sabe que os barões não estão na favela”.

É bonito ver a esquerda passando a mão na cabeça do crime organizado em nome da justiça social.

Parem as máquinas

Sáb, 02/08/08
por gmfiuza |
categoria Eleições

O grande escândalo da campanha eleitoral até agora é a censura imposta pelo tráfico de drogas no Rio à cobertura da imprensa. Eis o furo de reportagem: não existe liberdade de expressão nas favelas.

Estão todos perplexos e indignados, até o governador do estado. Provavelmente ninguém sabia disso, tal a estupefação geral.

Entidades de classe gritam basta, militantes de direitos humanos soltam manifestos, o poder público abomina a situação. A civilização grita contra a barbárie. Só não se sabe para quem ela grita.

Se não é para Deus, deve ser talvez para os traficantes. O basta mais patético da história. Algo do tipo “Pessoal: trafica, mata, mas não esculacha.”

Um apelo corajoso.

Só seria bom lembrar às autoridades indignadas que Tim Lopes, o jornalista, foi trucidado na Vila Cruzeiro seis anos atrás. Que uma candidata a governadora do Rio, por acaso uma ex-juíza, declarou dois anos atrás que não subiria morros para fazer campanha. Que uma repórter de “O Dia” foi torturada este ano numa favela em Realengo. Que… Enfim, que a perplexidade dos civilizados, incluindo o governador do estado e o presidente da República, está com a data de validade vencida.

Está criada a indústria nacional da indignação. Não demora, sai um manifesto da OAB ou da Anistia Internacional. Provavelmente, exigindo a democratização dos meios de comunicação nas bocas de fumo.

As bruxas de Amorim

Qui, 31/07/08
por gmfiuza |
categoria Celso Amorim

Se o mundo tivesse juízo, se curvava ao ministro Celso Amorim. Depois de ressuscitar o nazismo para acuar os ricos, agora ele ameaça a todos rogando sua praga por um novo 11 de setembro.

É um personagem emblemático da atual política externa brasileira. Segundo essa doutrina, esse negócio de dialogar com os outros não tem a menor importância.

O que vale é produzir frases que culpem alguém por alguma coisa – e aí vão sobrevivendo daquela velha geléia de indignação.

É curioso que exatamente nesse momento surjam novas notícias da conspiração do PT e do governo Lula com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Essa entidade terrorista que até Hugo Chávez está tratando de abandonar, foi engordada politicamente durante anos por José Dirceu, Lula e companhia.

Quem sabe o chanceler Amorim não alerta os Estados Unidos de que, se não andarem na linha, os nossos traficantes – Yes, nós temos traficantes – vão esmigalhar o Empire State a rajadas de AR-15?

Por que a esquerda brasileira não pensou nisso antes? Ainda vai aparecer uma carta de algum petista intermediando uma assembléia entre Fernandinho Beira-Mar e Manuel Marulanda.

Eis aí uma boa idéia: ministro Celso Amorim, pare de ameaçar os ricos com o terrorismo árabe. Os nossos facínoras são muito melhores. Não têm petróleo, mas têm cocaína.


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